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Emprego e Carreira
Essência X aparência
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O mestre Tan-hsia, da dinastia Tang, enfrentando um frio intenso e percebendo que não iria sobreviver, tomou uma estátua de Buda e com pedaços dela fez uma bela fogueira. Quando o guardião do templo, indignado, foi reclamar, o mestre, mexendo nas cinzas, disse que estava procurando sariras (restos que sobram de alguns corpos após a cremação) de Buda.
O guardião retrucou que não se podia encontrar sariras de Buda em um pedaço de madeira! Eis a lição: o mestre perguntou então se podia queimar as duas estátuas restantes, já que eram apenas pedaços de madeira. Esse ensinamento pode trazer boas orientações para a vida e também para a carreira profissional: as imagens e as aparências são apenas representativas. Quando um profissional confunde a aparência ou o símbolo de algo com a essência, posiciona-se de modo inadequado, toma decisões erradas e acaba colhendo problemas. É que os símbolos e as aparências revelam-se à mente de modo fácil e causam a ilusão. Na vida profissional Um executivo ocupa um cargo de grande importância em uma organização e por isso é recebido com reverência no banco, em grandes clientes e fornecedores. Daí adquire a ilusão de que é alguém especial, o que leva à arrogância e à soberba. Um belo dia perde o emprego e percebe que o importante era aquilo que o cargo representava. Vai lembrar-se do acerto que contém a frase do professor e então ministro Eduardo Portela: “Não sou ministro; eu estou ministro”. Isto é, o cargo é transitório, assim como o status dele decorrente. É fundamental ter atenção para perceber as grandes diferenças: A marca, tão venerada por algumas pessoas, não é a empresa ou o produto. Por exemplo, a Coca-Cola é uma das marcas de maior valor no mundo, mas se o refrigerante se tornar ruim, as pessoas param de bebê-lo. O troféu que a empresa ganhou por ser destaque no mercado é apenas um troféu que pode não fazer mais jus à realidade. A empresa não pode dormir nos louros e tem de buscar reconquistá-lo diariamente. O nome pomposo daquele projeto é apenas um nome e às vezes não diz respeito à qualidade do projeto em si. Iludir-se com o nome traz perigos. O rótulo de uma solução mágica que alguém apresenta como salvação da empresa é apenas um rótulo. Alguém se ilude com uma idéia bem embalada e bem vendida por um profissional, mas ela pode não ser eficaz. O nome forte que a empresa dá a um programa de bom atendimento aos clientes é apenas um nome. O que tem de ser bom de fato é o próprio programa e o acompanhamento constante. Procurando ver a essência Quando o profissional atinge um nível maior de consciência, quando procura ver a essência e não as aparências, suas decisões melhoram. Por exemplo: ele está em um cargo de destaque, mas na verdade tem um poder de decisão limitado e um salário igualmente restrito. Então, está vivendo uma ilusão e seria melhor buscar uma saída – mudança interna ou busca de outra alternativa fora. Uma das opções é usar o método dos Cinco Porquês, criado por Taiichi Ohno e amplamente utilizado na solução de problemas empresariais. Por meio dele, uma afirmação é submetida a cinco porquês sucessivos e isso passa a ser um teste de sua validade. “O projeto traz inúmeras vantagens ao cliente” – afirma alguém. Pergunta-se então o primeiro porquê e vai-se levando o raciocínio até as conseqüências mais radicais. Se ele for fraco, de repente se dissolve e a verdade implacável aparece. Uma reflexão sobre sua carreira: Identifique as afirmações fundamentais, os pressupostos que você considera sobre sua carreira. Por exemplo: “Estou sendo remunerado de acordo com o mercado”, “O mestrado vai fazer uma diferença na minha remuneração”, “Sou feliz no que faço”, “Sou respeitado na empresa em que trabalho”. Pergunte os porquês fundamentais para ver se essas afirmações resistem. Eventualmente a forma de perguntar deve variar. Por exemplo: “Baseado em quê considero essa premissa válida?” Surgirão inevitáveis dúvidas. Ótimo, porque segurança costuma ser atributo da tolice. A partir das dúvidas, busque mais informações, por meio de estudo, conversas, etc. Tome decisões a partir dos conhecimentos mais aprofundados que surgirão. Conclusão É mais fácil venerar a estátua do que assumir a verdade do Buda. Muita gente reza e acha que isso é suficiente. Outros fazem discursos elaborados e bem-intencionados e confundem esses com a conduta certa. Tudo isso é apostar na ilusão e os resultados não serão bons. Nada errado em ter símbolos, estátuas, lembretes – mas não se deve esquecer da essência e, em caso de frio que traz risco de vida, é bom queimar a estátua. *Ricardo de Almeida Prado Xavier, administrador de empresas, é presidente da Manager Assessoria em Recursos Humanos. |
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